O Brasil consumiu 46.219 gigawatts-hora (GWh) de energia elétrica em junho, alta de 2% sobre o mesmo mês de 2025. É o terceiro mês seguido de crescimento, segundo a Resenha Mensal do Mercado de Energia Elétrica, divulgada pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O resultado esconde uma distorção: quem puxou a conta para cima foram as casas e o comércio, não as fábricas. O consumo residencial cresceu 4,3%, o comercial avançou 4%, e a categoria “outros” subiu 0,3%. A indústria foi na direção oposta: recuou 0,2%, o único segmento em queda no mês. Acesse a Resenha Mensal.
O descompasso importa porque o consumo industrial de energia costuma funcionar como termômetro de atividade produtiva. Quando fábricas consomem menos eletricidade, é sinal de que estão operando com capacidade ociosa maior, produzindo menos ou os dois ao mesmo tempo. Residências e comércio consumindo mais, por outro lado, refletem calor, hábito de consumo e crescimento populacional, não necessariamente força econômica.
Regionalmente, todas as cinco regiões do país aumentaram consumo em junho, mas em ritmos bem diferentes. O Norte liderou, com alta de 4,3%, seguido por Centro-Oeste (4%) e Sul (3,6%). Nordeste cresceu 2,5% e o Sudeste, que concentra a maior parte do parque industrial brasileiro, avançou apenas 0,5% – a menor expansão entre as regiões, o que reforça a leitura de que a indústria segue represada.
No acumulado de 12 meses, o consumo nacional chegou a 570.514 GWh, alta de 0,8% – ritmo bem mais modesto que o do mês isolado, e que mostra que a recuperação recente ainda não se traduziu em uma tendência consolidada ao longo do ano.
Migração
O outro dado que chama atenção é a migração continuada para o mercado livre de energia. Em junho, esse ambiente respondeu por 46,5% de todo o consumo nacional – 21.491 GWh -, com alta de 2,9% no consumo e salto de 20% no número de consumidores na comparação anual. Desde que a Portaria 50/2022 do MME abriu o mercado livre para todos os consumidores de alta tensão (grupo A), em janeiro de 2024, mais de 47 mil empresas já migraram do mercado regulado – 25 mil em 2024 e outras 22 mil em 2025.
A migração tem lógica financeira direta: no mercado livre, a empresa negocia preço e fornecedor de energia, em vez de pagar a tarifa fixada pela distribuidora local. Com energia mais barata pesando cada vez mais na conta de operação industrial, essa fuga do mercado cativo tende a continuar — e já é maior no Centro-Oeste, região que mais expandiu consumo livre (7,2%), e no Norte, que teve o maior salto no número de consumidores livres (32,5%). Enquanto isso, o mercado regulado, ainda com 53,5% do consumo nacional, cresce em ritmo mais lento: 1,2% em consumo e 1,9% em número de consumidores.
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